Doações na Pandemia

24/04/2020

Mercado, estratégia e solidariedade em tempos de vírus.

Desde o início da crise de COVID-19, os grandes bancos dos Estados Unidos doaram mais de 200 milhões de dólares ao esforço de combate ao vírus. A soma varia de acordo com o porte da instituição: Wells Fargo doou 6.5 milhões; Morgan Stanley, 10 milhões; JP Morgan - o maior banco do mundo por capitalização de mercado - doou 50 milhões; Citibank, 65 milhões; Bank of America, 100 milhões. De forma similar, o Vale do Silício tem respondido à crise com generosas doações das Big Techs: o Google doou 800 milhões de dólares; a Cisco, 220 milhões; a Amazon, 25 milhões, e a Apple doou mais de 20 milhões de Máscaras N95. Grandes doações pessoais também foram anunciadas por bilionários como Jeff Bezos, que doou 100 milhões para bancos alimentares nos Estados Unidos. No Brasil, o Itaú largou na frente com mais de um bilhão de reais em doações para o "Todos pela Saúde", mas outros bancos, como o Banco do Brasil e o Bradesco, anunciaram 20 milhões em doações para a produção de testes do vírus.

Recebendo a notícia de todas essas doações, pode-se perdoar alguém por imaginar que a corrente filantrópica que acometeu as grandes empresas e empresários é símbolo maior da solidariedade e do cuidado com o próximo. Um olhar mais atento, contudo, tem servido de base para uma série de críticas aos atos de caridade que vão desde seu tamanho à sua motivação.


O primeiro questionamento é que o valor comprometido é pequeno. Certo: 100 milhões de dólares é um montante considerável, mas não representa sequer 0.1% da fortuna de Bezos, da mesma forma que os 50 milhões doados pelo JP Morgan não alcançam 1% de seu lucro líquido anual - e a tendência se confirma em outros bancos. Muitos têm se questionado se, frente a uma crise econômica que aparenta não ter precedentes, o 1% não deveria ter aberto mão de parcelas maiores de suas fortunas em doações.


Outro problema levantado é o de que o que aparentam serem doações podem ser, na verdade, investimentos. Isso não é novidade no capitalismo moderno - a Responsabilidade Social Corporativa há muito enxerga ações filantrópicas como investimentos na imagem da empresa - e pode constituir instrumento legítimo do mercado. A denúncia, todavia, da superficialidade das doações, na atual circunstância, é mais profunda: os mais de um bilhão de dólares comprometidos pela Google e pela Cisco são doações "in-kind", o que significa que as empresas já fornecem os recursos que doarão - são como coupons para utilização de seus serviços, e não transferências de renda. Ao mesmo tempo, as máscaras doadas pela Apple não foram compradas - já pertenciam à empresa, parte de um estoque emergencial para proteção dos empregados - e o dinheiro que a empresa está destinando às doações é vinculado às vendas da linha Product Red, e já estava programado para virar doação ao combate à HIV/AIDS antes de ser redirecionado. Esses detalhes não retiram o valor bruto das doações, mas podem relativizar seu aspecto solidário.


Por último, questiona-se como as doações se sustentam frente à situação financeira atual das empresas. De um lado, gigantes de tecnologia que doaram bilhões de dólares, como a Amazon, a Microsoft e a Netflix, estão experimentando aumentos extraordinários na venda de serviços devido à segregação social - talvez as doações não afetem, afinal, o aumento no seu lucro anual. Além disso, há os enormes bailouts e incentivos financeiros dados por governos às grandes empresas. Só nos Estados Unidos, até agora, a COVID-19 já acarretou 500 bilhões de dólares em bailouts concentrados nas grandes corporações. Quanto aos bancos, receberam do governo federal 350 bilhões de dólares para financiamentos de pequenos negócios, e as acusações de desvio e redirecionamento de verba já chegaram ao Judiciário americano em peso. No Brasil, cerca de 1,2 trilhão de reais - 10 vezes mais do que o valor mobilizado em 2008 - foi liberado aos bancos pelo Governo a fim de impedir a falência das principais instituições financeiras do país em decorrência da falta de caixa, da queda na taxa de juros e da elevação do risco de empréstimo. O valor das doações dessas empresas nem sequer se aproxima do total destinado a resguardá-las na crise. Se as grandes empresas não estão dispostas a arriscar parte de seus lucros na transferência de renda ou oferta de crédito, limitando-se a repassar parcelas - ínfimas - do capital cujo risco já foi assumido pelo governo, talvez não estejam tão interessadas no bem-estar comum quanto afirmam.


Bernardo Andreiuolo

Estudante de Direito na FGV/Direito Rio.