Das Salas de Cinema ao Sofá

01/05/2020

Os impactos da COVID-19 na indústria cinematográfica.

A indústria cinematográfica tem sido desafiada nos tempos de isolamento social. Se, por um lado, tem promovido momentos de desconcentração e lazer - quase um serviço essencial à saúde mental de quem está isolado - por outro, tem vivenciado o esvaziamento das salas de cinema e a suspensão de diversas produções, como meio de se preservar a saúde dos profissionais da área.

Para o cinema brasileiro, a realidade é ainda mais grave: a Covid-19 e suas medidas de combate representam um duro golpe para um ramo que já se encontrava asfixiado. O início da crise remonta ao ano de 2018, com a descontinuidade de mandatos da administração da Agência Nacional de Cinema e após o Tribunal de Contas da União encontrar irregularidades na prestação de contas do órgão regulador, suspendendo, por conta disso, repasses de recursos públicos federais ao audiovisual brasileiro. A partir de então, com o posterior desmantelamento do Ministério da Cultura pelo governo Bolsonaro, a crise agravou-se cada vez mais, de modo que o número de produções cinematográficas brasileiras foi extremamente reduzido.

Em uma conversa exclusiva com o Mapa Covid-19, Roberto Santucci, diretor de filmes nacionais como "Até que a sorte nos separe" e "De pernas para o ar", afirma que, desde a eclosão da crise no setor, as produções audiovisuais brasileiras estão gradualmente migrando das grandes telas de cinema para as televisões através de serviços de streaming, como Netflix e Globoplay, e que a pandemia pode intensificar esse processo. Anteriormente, o financiamento para o cinema brasileiro poderia ser escasso, mas existia um latente mercado consumidor, já no momento em que vivemos, nem mesmo tal demanda está disponível.

O diretor afirma ainda que, com as novas dinâmicas e recomendações sociais derivadas da Covid-19, instaura-se um ambiente de incerteza quanto à própria forma de se fazer cinema em um futuro próximo, visto que diferentes regramentos acerca de interações entre indivíduos podem emergir e grande parte da 7ª arte é constituída pelo trabalho presencial e coletivo.

Para ele, o cinema, no sentido de localidade e janela expositora de longa metragens, apesar de sofrer uma retração por ora, não deixará de existir ou perderá sua relevância, pois representa mais que simples projeções de imagens em uma tela grande. O cinema é, na verdade, uma tradição da cultura ocidental traduzida em diversas atividades: sair de casa, comer pipoca e, então, assistir ao filme - eventualmente acompanhado.

Nos Estados Unidos, de acordo com dados da United Drive-In Theatre Owners Association, o fechamento das salas de cinema regulares suscitou o aumento de uma forma de assistir filmes há décadas adormecida: os cinemas drive-in, onde, no período da noite, longa metragens são projetados em grandes telas e espectadores assistem dentro de seus automóveis. O Brasil, por enquanto, vive em contrapartida ao fenômeno estadunidense, visto que, no dia 10 de abril deste ano, o último cinema drive-in em território nacional fechou as portas.

Vale ainda ressaltar que o serviço de streaming Netflix em parceria com o Instituto de Conteúdos Audiovisuais Brasileiros promoveu a criação de um fundo emergencial de 5 milhões de reais destinados à profissionais da comunidade criativa que foram compelidos a interromper suas atividades no momento - desde produtores à maquiadores.

Diante do exposto, é notório que a indústria cinematográfica, assim como diversos outros setores sociais, será sensível aos duros impactos da crise sanitária e econômica que a humanidade vivencia: a situação atual pode alterar substancialmente a forma como o Brasil consome conteúdos audiovisuais produzidos por brasileiros para brasileiros - substituindo as grandes telas pelo aconchego do sofá.


Maria Eduarda Oliveira

Estudante de Direito na FGV/Direito Rio.