Estudo nos Dias Pandêmicos

02/05/2020

As escolas fecharam. E agora?

O presidente Jair Bolsonaro, no dia 24 de março de 2020, em pronunciamento em rede nacional, questionou a necessidade dos fechamentos das instituições de ensino no país. Ele alegou que pessoas com menos de 60 anos não estariam no grupo de risco, e que são raros os casos fatais em pessoas com menos de 40 anos.

O questionamento do presidente está em uma verdadeira contramão em relação à política adotada pela esmagadora maioria dos países ao redor do mundo. Segundo a UNESCO, atualmente 186 países realizaram o fechamento de instituições de ensino. Ainda que haja uma probabilidade de que à época do discurso do presidente esse número fosse menor, é possível observar que países que vêm tendo sucesso em achatar suas curvas de contaminação, como a Coreia do Sul e o Japão, realizaram o fechamento das escolas.

A pergunta que fica é: com o fechamento das escolas, as aulas prosseguiram?

A análise comparativa será feita com base nos dois países supramencionados.

Na Coreia do Sul, a resposta é sim. Depois de uma suspensão das aulas, que começariam em março, mas só começaram em abril, o governo anunciou que o plano de aulas do semestre ocorreria online. Os alunos assistem às aulas por meio do canal nacional de educação, as quais são previamente gravadas pelos professores. Além da necessidade de um bom aparelho como notebook para assistir as aulas, uma boa internet também é essencial. Por isso, o governo coreano realizou o empréstimo de 321.000 aparelhos para famílias de baixa renda, na tentativa de solucionar o problema.

No Japão a resposta também é sim, porém com limitações. Diferentemente da Coreia do Sul, no Japão o que vem ocorrendo são iniciativas pontuais de governos locais para o prosseguimento das aulas online. As plataformas usadas são Zoom, Classi e Google Drive. A prefeitura de Osaka e Kumamoto, por exemplo, chegaram a distribuir Ipads para alguns alunos continuarem seus estudos. No entanto, as prefeituras destacadas se mostram ser exceções em comparação com o restante do país. Assim, não é possível dizer que as aulas online foram uma escolha de política pública, já que é algo que não se aplica a todo o território japonês, mas sim às iniciativas específicas e minoritárias em certos locais do país. Na maior parte do Japão, as escolas públicas não estão preparadas para continuar as aulas de forma online.

A partir da análise desses dois países asiáticos, é possível inferir que, embora seja socialmente desejável que as aulas prossigam, a concretização disso, em especial nas redes públicas, é um verdadeiro desafio que poucos puderam se dar ao luxo de tentar enfrentar.


Julia Lie

Estudante de Direito na FGV/Direito Rio.