Fenômeno do Mundo Digital

19/04/2020

A desigualdade no acesso à internet nos tempos de COVID-19.

Buscando caminhos para atenuar os efeitos gerados pela COVID-19, emerge, em muitos países, a percepção de que a tecnologia, essencialmente o mundo digital, deixou de ser uma opção e passou a ser um aliado indispensável para enfrentar os desdobramentos dessa crise.

A utilização de veículos digitais como o Facebook, WhatsApp e Instagram aumentou drasticamente desde o início da pandemia. De acordo com o CEO Mark Zuckerberg, essas redes alcançaram índices registrados apenas no pico anual, o qual ocorre no Ano Novo. Colocando em números, o Facebook afirma que nos países gravemente atingidos pelo vírus, houve um aumento de 50% no número de mensagens enviadas pelos aplicativos da empresa. Na Itália, mais especificamente, está sendo gasto 70% mais tempo nos apps da plataforma desde que a crise se instalou no país, e, ainda, o tempo das chamadas em grupos realizadas nessas redes chegou a aumentar mais de 1.000% durante o mês de março.

Além desses aplicativos, outro programa que teve exponencial crescimento durante a pandemia foi o Zoom. Essa plataforma de videoconferência teve um expressivo aumento de 2,22 milhões de usuários ativos, segundo artigo publicado pela CNBC (Consumer News and Business Channel) ainda em fevereiro deste ano.

Essa onda de acessos revela como as nações tiveram de se render a meios alternativos de interação: encontros com família e amigos, visitas médicas de rotina, reuniões de trabalho, escolas e faculdades tiveram de se reinventar diante do cenário de isolamento social enfrentado por 2,6 bilhões de pessoas ao redor do mundo, segundo dados do Fórum Econômico Mundial.

Em contrapartida, se por um lado o acesso à internet tem se mostrado uma ferramenta crucial durante a pandemia, sua falta faz soar um sinal vermelho. Segundo dados do Fórum Econômico Mundial, metade da população global não têm acesso à rede de computadores. Essa desigualdade no ingresso ao mundo web é particularmente alarmante em países pobres ou em desenvolvimento, nos quais os serviços de saúde e saneamento básico já são precários, e portanto, estar on-line deixa de ser um fator primordial se comparado a outras necessidades.

No Brasil, uma das medidas adotadas pelo governo para auxiliar financeiramente parte da população durante a crise da Covid-19 tem como principal via de cadastro a internet. Para o recebimento dos R$ 600,00, medida que ficou conhecida como "coronavoucher", parte dos interessados deveria requerer o auxílio pelo site ou app Caixa Auxilio Emergencial.
Cabe lembrar, contudo, que, no país, mais de ⅓ dos domicílios não possuem acesso à internet, e esse índice chega a 70% em moradias das classes D e E, principal público que esse plano pretende alcançar. Aqueles sem acesso à internet deveriam realizar o cadastro em uma agência da Caixa Econômica Federal ou em casas lotéricas.

Mesmo países desenvolvidos vêm encontrando dificuldades. Nos Estados Unidos, um dos países mais conectados do mundo, algumas de suas escolas implementaram "estudo à distância" (EAD) durante esse período de pandemia, sem considerar dificuldades de acesso que seus alunos poderiam encontrar - segundo artigo publicado pela Bloomberg. Não consideraram, por exemplo, variáveis como ter apenas um computador disponível para uma casa de cinco pessoas, questão crucial para o bom funcionamento deste tipo de ensino.

A crise atual tem tornando ainda mais evidente as agruras das diferentes desigualdades enfrentadas ao redor do globo. Com a desigualdade no acesso à internet, não é diferente. A criação de medidas eficazes contra a Covid-19 depende da observância de diversos fatores. Nesse cenário, o mundo virtual pode ser uma ponte, mas também uma barreira.


Esther Martins

Estudante de Direito na FGV/Direito Rio.