O Grande Lockdown

27/04/2020

O que será da globalização pós-coronavírus?

A Covid-19 vem se apresentando como um dos grandes acontecimentos do século. Seus efeitos estão sendo traumáticos e vão redefinir muito da dinâmica econômica global.

Recentemente, a Conselheira Econômica do Fundo Monetário Internacional (FMI), Gita Gopinath, publicou um artigo batizando a recessão por vir como "The Great Lockdown".
Enfática, a Conselheira revela que os impactos do necessário isolamento social causado pela Covid-19 trarão a maior recessão desde 1929. Diferente de 2008, quando a crise foi causada por desajustes no mercado de crédito americano, a atual apresenta uma dinâmica nova. Pela primeira vez estamos passando pelo surto de uma doença altamente contagiosa, letal, sem vacina e em meio a um mundo extremamente globalizado, fazendo com que a atividade econômica sofra uma brusca parada devido às quarentenas implementadas pelo globo. Demorou pouco mais de 3 meses entre o vírus surgir, no interior da China, e a capital financeira mundial, Nova York, se fechar.

Porém, ainda é muito cedo para prever o tamanho exato da queda. Nenhum país se recuperou totalmente da pandemia, e ainda não se sabe se haverá a dita 'segunda onda' ou quantos empregos serão extintos. As variáveis são muitas, dificultando estimativas certeiras das perdas, mas especialistas já revelam que há uma nova economia internacional em curso.

O mundo será menos globalizado, como diz o fundador da Eurasia Group, Ian Bremmer. Em recente coluna na revista TIME, ele argumenta que o novo coronavírus mostrou as fragilidades das cadeias globais de produção, colocando sua crença em cheque. Por isso, nos países mais ricos, grupos mais atingidos pela crise vão clamar ainda mais por políticas nacionalistas, de suporte à promoção de empregos dentro das suas fronteiras, combatendo o comércio internacional. De maneira semelhante, Joseph Stiglitz, Nobel de Economia em 2001, diz que a COVID-19 fez o mundo perceber as fraquezas da globalização econômica. Assim, as empresas tendem a se voltar para redes de suprimento dentro das fronteiras nacionais, para que não sejam completamente dependentes do comércio internacional, tal como pensa Robin Niblett, diretor do Royal Institute of International Affair, em recente artigo à Revista Foreign Policy.

Em especial, nos EUA, o diplomata e Professor da NUS (National University of Singapore), Kishore Mahbubani, imagina que a pandemia acentuará o movimento de descrença na globalização que elegeu Donald Trump, ao mesmo tempo que a China continuará adotando essa ideia, permitindo que ela se torne cada vez mais o centro desse grande jogo. Por fim, o Professor de Harvard, Stephen Walt, propõe que o poder mundial se deslocará ainda mais do ocidente para o oriente, fenômeno impulsionado pela visão de que a China soube como vencer o vírus, enquanto os EUA estão perdendo a luta. Sendo assim, o soft power americano estará cada vez mais desgastado.

A COVID-19 vem se apresentando como um grande desafio econômico, que vai fazer o mundo encolher e empobrecer. Já é consenso entre os economistas que teremos uma recessão global em 2020, sendo a maior desde 1929. Além disso, no longo prazo, "O Grande Lockdown" vai alterar a maneira como se dá comércio global e suas implicações políticas, configurando-se como um evento que marcará profundamente essa geração.


Vinícius Hector

Estudante de Economia na FGV/EPGE.