Guerra das Máscaras

18/04/2020

No dia 18 de março, Donald Trump anunciou que aplicaria lei de 1950 (Defense Production Act - "Lei de Produção da Defesa") para tentar barrar a expansão da Covid-19. Promulgada durante a Guerra Fria, a lei permite que o governo interfira na iniciativa privada com o objetivo de alinhar a produção industrial americana com as necessidades por que passa o país. Dentre as empresas afetadas, a 3M, grupo econômico americano, teve de reorganizar suas indústrias a fim de priorizar a produção de materiais de proteção à Covid-19.

No dia 3 de Abril, três grandes encomendas de material médico encomendadas da China por Alemanha, França e Brasil foram desviadas e retiradas antes de chegarem em seus destinos finais. Os países que realizaram as encomendas junto ao Brasil, acusaram o governo americano pelo desvio. De acordo com declaração realizada pelo político francês Jean Rottner à emissora RTL: "Na pista do aeroporto, os americanos tiram dinheiro da carteira e pagam três ou quatro vezes mais pelos pedidos que fizemos, então é preciso brigar de verdade".

Após a polêmica, Trump se pronunciou no dia 4 de Abril a respeito do assunto, "Precisamos das máscaras. Não queremos outros países conseguindo máscaras. Você pode até chamar de retaliação porque é isso mesmo. É uma retaliação. Se as empresas não derem o que precisamos para o nosso povo, nós seremos muito duros".

Além de máscaras, uma carga de 600 respiradores artificiais produzidos na China, encomendada por estados brasileiros, ficou retida no aeroporto de Miami (EUA), tendo seu contrato cancelado pela empresa fornecedora meio ao cenário de crescente pandemia que assola o país.

Mesmo diante de seguidos apelos por cooperação, a pandemia da Covid-19 tem revelado uma assombrosa falta de organização entre os países, gerando uma verdadeira "Guerra de máscaras". Os países parecem estar se valendo de todos os meios possíveis para barrar a pandemia, seja atuando no cenário internacional como "piratas modernos", seja mitigando a liberdade da iniciativa privada em seus próprios territórios. Um fato, contudo, mostra-se indiscutível: nesses tempos de pandemia, o Estado tem exercido um papel de protagonismo, gerando perguntas quanto a qual será seu papel depois que tudo passar.


Antonia Maciel

Estudante de Direito na FGV/Direito Rio.