Irã

27/04/2020

O Irã é um dos países mais afetados pela pandemia no mundo. Até a data de fechamento deste relatório, 27 de abr. de 2020, os últimos números indicavam 92.584 casos e 5.877 mortes. O país tem sofrido muitas críticas nos veículos internacionais devido a uma demora para iniciar medidas efetivas no combate ao vírus, bem como uma suposta falta de transparência com relação aos dados oficiais acerca da situação. O bloqueio econômico liderado pelos Estados Unidos é visto como um dos maiores problemas neste momento, pois, de acordo com líderes do governo, isso tem dificultado as negociações para compra de recursos de outras nações. Em retração desde 2018, a economia iraniana foi considerada incapaz de suportar uma quarentena "total" nos moldes da China e, em 04/04/2020, negócios de "baixo risco" foram autorizados a reabrir.

O primeiro anúncio sobre a Covid- 19, em 19/02/2020, já informava sobre duas mortes na cidade de Qom e que já haviam outros cidadãos em quarentena sem maiores esclarecimentos. A constatação de que os primeiros contaminados não realizaram viagens à China e, tampouco, entre regiões do Irã indicou que o vírus já havia se espalhado, suscitando dúvidas sobre a veracidade dos dados oficiais. Na mídia, foi veiculada uma suposta carta, atribuída ao Ministro do Interior, que pedia a não divulgação de relatórios sobre a situação do vírus no país até o final das eleições parlamentares que ocorreriam em 21/02/2020. A autenticidade da carta foi negada pelo Ministério da Saúde, mas especialistas apontam as eleições como um dos fatores de grande disseminação do vírus.

Embora o país tenha informado oficialmente que fecharia escolas e universidades para investigações, após as mortes, outros locais de aglomeração, como templos, continuaram abertos no mínimo até 26/02/2020. Apesar dos pedidos públicos para o fechamento do santuário de Masoumeh, na cidade de Qom, apontada como epicentro da pandemia no Irã, o clérigo Mohammad Saeedi incentivou visitas ao local, sob a justificativa de que sua arquitetura protegeria os fiéis de qualquer contaminação. O Ministério da Saúde sugeriu o fechamento do templo, contudo, não houve solicitação oficial. Até a referida data, o presidente do país, Hassan Rouhani, referia-se ao vírus como uma conspiração ocidental para prejudicar a economia iraniana.

As primeiras medidas públicas objetivavam o distanciamento social. O Irã adotou o fechamento de escolas e centros culturais a partir do dia 23/02/2020. Nesse sentido, em 17/03/2020, o governo anunciou a libertação de cerca de 54 mil detentos para diminuir aglomerações e realizar testagens. Um evento de grande aglomeração, o Ano Novo iraniano, ocorreu entre os dias 21/03/2020 e 03/04/2020 e, apesar das recomendações do governo para evitar viagens dentro do país, muitos cidadãos se deslocaram internamente. Diferentes medidas de bloqueio de estradas e circulação de transportes foram adotadas por governadores, sendo suas falhas e a diferença de abordagens com relação ao tratamento do assunto apontadas como uma das causas de ineficiência para conter os deslocamentos no território. 

(Praça Naqsh-e Jahan, em Isfahan, no Irã)
(Praça Naqsh-e Jahan, em Isfahan, no Irã)

O Irã possui um Fundo Nacional de Desenvolvimento (NFD), em moeda estrangeira, cuja movimentação depende da autorização do líder da revolução islâmica, o Aiatolá. Para destinar recursos à implementação de diversas medidas de combate ao vírus, o presidente Hassan Rouhani solicitou ao aiatolá Khomeini permissão para utilizar o Fundo, tendo conseguido obtê-la. Assim, cerca de um bilhão de euros foram destinados, sobretudo ao Ministério da Saúde, para a confecção de testes e compra de materiais. Outra fonte financeira foi o Fundo de Inovação e Prosperidade, do qual foram destinados cerca de 5 trilhões de rials para produção de produtos como desinfetantes, equipamentos médicos e farmacêuticos e auxílio a empresas afetadas pela pandemia.

Segundo o Instituto Pasteur do Irã, o país anunciou a produção semanal de cerca de 80.000 kits de diagnóstico molecular para exportação, enquanto realiza, aproximadamente, 10.000 testes diários em 90 laboratórios do país. O governo determinou o auxílio das Forças Armadas Revolucionárias no trabalho de contenção do vírus. Assim, enquanto o governo anunciou a utilização de ligações e aplicativos para ajudar no rastreamento de possíveis casos, as Forças Revolucionárias montaram clínicas fixas e móveis para aumentar a triagem e encaminhar os casos suspeitos para os hospitais adequados.

Em termos econômicos, o Irã adotou a concessão de auxílios e empréstimos para auxiliar famílias e empresas. Para as famílias de baixa renda, anunciou-se a concessão de um auxílio financeiro, por ora, durante os meses de abril, maio e junho. Devido aos preceitos religiosos que estimulam a caridade, o aiatolá Khomeini pediu atenção para com as famílias pobres e o Corpo de Guardas da Revolução criou a Fundação Iman Hassan para coordenar esforços e medidas de apoio a elas. Estima-se que cerca de 3,5 milhões de famílias carentes receberão auxílio através dessa organização. Para auxiliar pequenas e médias empresas, o governo determinou a concessão de empréstimos, por meio dos bancos. A medida também visa coibir demissões, visto que apenas empresas que não reduziram seu quadro de funcionários durante a crise do coronavírus poderão obter os empréstimos. A partir do Fundo de Seguro Desemprego, que em caráter emergencial está recebendo doações dos salários de comandantes da Guarda Revolucionária, está sendo concedido um auxílio financeiro aos cidadãos que perderam seus empregos durante a pandemia.

A presença da Sociedade Civil nas medidas contra o coronavírus no Irã tem sido marcada por associações internacionais e doações estrangeiras. Países como China e Japão destinaram recursos como máscaras, respiradores e até mesmo doações monetárias para serem empregadas no combate ao vírus no país. A embaixada iraniana na China divulgou uma conta para arrecadar doações para o Irã e recebeu uma significativa quantia, demonstrando que as doações estrangeiras não partem apenas dos governos, mas também da população. A Organização Mundial da Saúde enviou profissionais e equipamentos para realizar triagens residenciais e atender cidadãos que não possuem acesso ao sistema de saúde. Ressalta-se que assim como há dificuldade para mapear ações oriundas da sociedade iraniana, o mesmo acontece com agentes privados. Vale destacar, no setor privado, a "Campaign Nafas", campanha impulsionada por cerca de 200 empresas e voluntários para compra, produção e entrega de respiradores N-95 e materiais de proteção para os médicos.

Um fenômeno observado em diversos países do mundo durante a pandemia é a participação das instituições religiosas no combate ao vírus. No Irã, essa atuação também pode ser observada. Algumas mesquitas estão sendo utilizadas para a produção de máscaras e líderes religiosos, que possuem influência no país, corroboram a importância do fechamento de templos e não realização de orações para contornar a situação.

Em termos de pesquisa, a Press TV, agência oficial de notícias do Irã, anunciou que pesquisadores da Universidade de Ciências Médicas de Baqiyatallah estão trabalhando no desenvolvimento de medicamentos e de uma possível vacina contra a Covid-19. Um dos medicamentos passou na fase de testes de laboratório e encontra-se na fase de testes clínicos. Ainda nessa área, o país tem utilizado a terapia com plasma sanguíneo convalescente para ajudar na recuperação de contaminados em estado grave. Em 24/02/2020, enquanto outros países estavam em fase de testes desse método, o Irã apresentou um relatório completo sobre a terapia e, segundo o líder do projeto, Dr. Hassan Abolqasemi, essa terapia é responsável pela queda de 40% no número de mortes pela Covid-19 no país.

As medidas e políticas analisadas demonstram que apesar de uma demora para estabelecer respostas eficazes, atualmente, o Irã vem adotando diferentes medidas para conter a disseminação do vírus e garantir o bem-estar de sua população de acordo com suas especificidades sociais e econômicas.