Japão

27/04/2020

O Japão foi um dos primeiros países a relatar casos de Covid-19. No dia 27 de abril de 2020, o país apresentou 712 novos casos, somando mais de 14 200 pessoas testadas positivas para Sars-CoV-2. A priori, o país asiático chamou a atenção da mídia internacional por adotar medidas menos restritivas em relação àquelas eleitas por seus vizinhos, tal como China e Coreia do Sul. Diante do aumento do contágio e da crescente situação de calamidade que surgia no país, contudo, as autoridades japonesas se viram obrigadas a mudar de posição.

No fim do mês de fevereiro, o governo determinou que férias escolares fossem antecipadas em duas semanas e proibiu a realização de eventos que suscitassem aglomerações humanas, adiando, em seguida, os Jogos Olímpicos - que ocorreriam em Tóquio - para 2021. No entanto, os estabelecimentos comerciais e restaurantes continuaram funcionando normalmente.

Nesse período, o país ainda obtinha algum êxito em promover o achatamento da curva de infectados, mesmo sem contar com a adoção de medidas radicais - como a quarentena horizontal - ou mesmo com a realização de testes em massa - como a Coreia do Sul. Por essa razão, a mídia internacional atribuiu tais resultados a aspectos culturais do país, o pouco contato físico e o uso regular de máscaras, por exemplo.

Ainda assim, diante uma relativa mudança na curva de infectados, o parlamento aprovou uma alteração à Lei de Medidas de Combate à Novas Influenzas Pandêmicasno dia 10 de março de 2020, a qual permitia o primeiro ministro a decretar estado de emergência devido à crise de Covid-19.

O estado de emergência foi declarado no dia 6 de abril por Shinzo Abe. De início, tal medida destinou-se a sete das quarenta e sete províncias do país, mas, no dia 16 de abril, foi expandida para todo o território japonês, em virtude de um aumento considerável de contágios não rastreados. Deste modo, grande parte da população, que dias antes aglomerava-se para contemplar o desabrochar das cerejeiras típicas do país, atualmente está evitando deixar suas respectivas residências.

Frente ao exposto, o governo, diversos setores da Sociedade Civil e a iniciativa privada estão se mobilizando para conter o avanço do vírus, auxiliar os mais vulneráveis e mitigar as externalidades negativas advindas da pandemia no país.

(Centro de Tóquio, capital do país)
(Centro de Tóquio, capital do país)

O governo japonês propôs um pacote de ajuda financeira de quase 1 trilhão de dólares (o que corresponde à 20% do PIB do país) para auxiliar famílias e empresas a atravessarem a dura recessão que acompanhará o período de crise; está incentivando ao máximo companhias privadas a instituírem o home office; disponibilizou linhas telefônicas multilíngues para garantir acesso à informação sobre a doença e dinâmicas sociais recomendadas a estrangeiros no Japão; prevê a implementação de um aplicativo para que as autoridades possam identificar rapidamente indivíduos contaminados, como o adotado em Singapura; proibiu a entrada de nacionais de mais de 73 países e territórios no arquipélago, pretendendo aumentar essa lista; e, em algumas cidades, máscaras de pano estão sendo oferecidas a cidadãos que pagam uma "taxa especial" como uma forma de agradecimento.

Ademais, o Banco Central japonês anunciou a retirada do limite máximo para a compra de títulos do governo e o aumento de compra de títulos corporativos e notas promissórias - o que permite empresas captarem recursos à curto prazo.

A Sociedade Civil também está se mobilizando de diversas maneiras. Pesquisas sobre os impactos psicossociais da quarentena estão sendo realizadas: Florence, uma organização não governamental entrevistou quase 10.000 cidadãos ao redor do país para compreender como o isolamento social tem afetado as relações entre pais e filhos. A entrevista resultou em recomendação para que autoridades estabeleçam locais onde crianças possam estudar e brincar fora de casa, um vetor de preservação da saúde mental da população. Ademais, ainda visando à salubridade das relações parentais, nas redes sociais, estão sendo criados e distribuídos conteúdos online como aulas, revistas e workshops destinados ao entretenimento de famílias.

Escolas e universidades estão se adaptando aos novos desafios de forma gradual, algumas instituições já estão atuando na modalidade online, outras ainda decidem o curso de ação. Nesse cenário, o grupo Free, que defende a gratuidade do ensino superior do Japão, realizou uma pesquisa com diversos estudantes e constatou que esse setor da sociedade teme ter que deixar os estudos devido à queda de renda. Segundo eles, seria prudente que restaurantes fossem abarcados pelo subsídio governamental, visto que o setor depende vitalmente do trabalho de meio-período de tais estudantes.

Cumpre ressaltar que, no país, as pesquisas não estão sendo realizadas apenas no âmbito psicossocial. Equipes médicas japonesas também pesquisam possíveis formas de cura para a doença: profissionais do Centro Nacional para a Saúde e Medicina Global darão início a testes clínicos de tratamento que consiste em transfusões de plasma sanguíneo de pessoas recuperadas da Covid-19.

Além disso, vale destacar que o anúncio do isolamento em Tóquio atingiu diretamente mais de quatro mil cidadãos que pernoitavam diariamente em internet cafés, os quais, devido à medida, deverão ser fechados. Por infortúnio, o número de necessitados e desabrigados aumentou de forma exponencial. A medida também suscitou uma mudança de comportamento por parte de grupos de assistência social e caridade: dos trinta grupos entrevistados pelo mais popular veículo de comunicação do país, NHK, quinze interromperam ou reduziram suas atividades devido à potencial contaminação, já outros afirmaram ter aumentado sua carga de trabalho e dizem fazer o possível para evitar contaminações, como utilizar máscaras, manter distância dos demais indivíduos e providenciar alimentos no formato takeaway.

Nesse sentido, diversas campanhas de doações online estão sendo realizadas, seja para arrecadar itens específicos de higiene pessoal para famílias que já possuíam essa necessidade anteriormente à pandemia, seja para arrecadar máscaras, luvas e respiradores para a população e o sistema de saúde em geral.

Empresas privadas, por sua vez, estão adotando diversas medidas para resistir à crise e contribuir para o bem-estar sociedade. Pequenos negócios estão utilizando plataformas de crowdfunding para garantir a manutenção de suas rendas; a gigante de comunicações Softbank Group anunciou que fornecerá mensalmente 300 milhões de máscaras aos cidadãos; a ANA Holdings, um conglomerado de companhias aéreas japonesas, aproveitará as equipes que tiveram a carga horária de trabalho reduzida, devido à paralisação dos voos, para costurar aventais médicos, item escasso no cenário pandêmico; e a empresa Uber Eats realizou uma parceria com a prefeitura de Kobe para oferecer 10% de desconto para pedidos em restaurantes da cidade, tal medida tem como objetivo não apenas auxiliar nas vendas desses estabelecimentos, mas aumentar a oferta de empregos a curto-prazo - no caso, entregadores delivery.

Assim, é evidente que, em um cenário de incertezas biológicas, econômicas e sociais, o Japão conta com esforços governamentais, da Sociedade Civil e da iniciativa privada para que, juntos, possam superar da melhor forma possível a crise instaurada no país.