Líbano

27/04/2020

No dia 27 de abril de 2020, o Líbano havia registrado 710 casos positivos para a Covid-19. A pandemia do novo coronavírus chega ao Líbano em um momento excepcionalmente complexo. O país vive sua pior crise econômica em décadas e vem recebendo contingentes diários e numerosos de refugiados sírios desde o início da guerra, fatores que tornam a situação ainda mais calamitosa.

Em setembro de 2019, 33% da população encontrava-se abaixo da linha de pobreza, percentual que hoje já atinge 45%. Nesse cenário de crise sanitária e econômica, o governo libanês aprovou, no dia 1º de abril, um auxílio financeiro equivalente a $150 para as famílias mais pobres, completando ações anunciadas uma semana antes, as quais previam a alocação de $28 milhões para nutrição e assistência sanitária entre os libaneses de baixa renda. No entanto, tais iniciativas carecem de maiores detalhes, fazendo soar um alarme vermelho quanto à sua real implementação - segundo a Human Rights Watch (HRW), nenhuma assistência havia se materializado até o dia 8 de abril.

Outras medidas adotadas pelo governo incluem o fechamento de fronteiras, o fechamento de instituições públicas e privadas não essenciais e a imposição de um toque de recolher em todo o país, entre as 19h e 5h a partir de 16/03.

Contudo, a HRW alerta que ao menos 20 municípios adotaram medidas mais restritivas contra refugiados sem nenhuma justificativa plausível, configurando uma real discriminação. Os refugiados também demonstraram preocupação com a dificuldade de acesso ao sistema público de saúde e a falta de informações sobre como se prevenir da contaminação.

Os mais de 1 milhão de refugiados do país (maior concentração per capita no mundo) são um grupo, por definição, mais vulnerável. Em tempos de pandemia, os refugiados se veem diante de mais um obstáculo. Nas estruturas rudimentares dos campos de refugiados, o distanciamento social torna-se inexequível: não há espaço suficiente para se adequar às medidas defendidas pela Organização Mundial de Saúde, e, em muitos casos, sequer estrutura de saneamento básico satisfatória. Além dos refugiados, os migrantes em situação irregular também se encontram em situação de alarmante vulnerabilidade - por exemplo, há relatos de cobrança por testes em hospitais públicos ou até mesmo de lhes terem sido negado atendimento.

(Vista aérea de Beirute, capital do Líbano)
(Vista aérea de Beirute, capital do Líbano)

Nos âmbitos político e cívico, o grupo paramilitar e partido político Hezbollah (considerado terrorista por alguns países) mobilizou mais de 5 mil médicos e 3 mil enfermeiros e socorristas, que normalmente estariam em combate contra Israel, para atuar contra o novo coronavírus. Além disso, disponibilizou um hospital inteiro, dois centros de testes e uma frota de 25 ambulâncias para os contaminados, visando a aliviar a sobrecarga dos hospitais públicos. Entretanto, essa intervenção é controversa, já que a oposição política considera que o financiamento de um sistema de saúde paralelo prejudica o equilíbrio de poderes do governo libanês e que o Hezbollah está se aproveitando da crise para aumentar sua popularidade e influência. Ainda, como o número de casos é baixo no sul do Líbano (região dominada pelo Hezbollah), há suspeitas de que o grupo não esteja divulgando todos os casos.

Por fim, no que tange à iniciativa privada, constata-se certa mobilização das empresas para auxiliar no combate à pandemia. A título de exemplo, lojas de roupas estão produzindo máscaras, aventais e lençóis para ajudar os hospitais locais, e empresa que normalmente fabrica fios dentais e fraldas está se dedicando a produzir respiradores.

Portanto, percebe-se que a pandemia da Covid-19 se soma a outras questões preexistentes no Líbano, tornando o cenário ainda mais complexo. As visões trazidas por grupos de direitos humanos são preocupantes, prevendo um quadro em que milhões de libaneses passarão fome se medidas concretas de auxílio financeiro não forem implementadas com urgência. Ainda, os milhões de refugiados e migrantes enfrentam obstáculos que não vêm sendo devidamente considerados pelo governo libanês. Assim, embora o país esteja sendo relativamente bem-sucedido no controle da propagação do vírus, faltam medidas do poder público para amenizar os efeitos da crise e prover todos os serviços necessários.