Não Adianta Negar

11/05/2020

Quando não se para diante do vírus, ele se faz parar

A palavra "lockdown", na última semana, entrou de vez na mídia nacional. São Luís, no Maranhão, foi a primeira capital a adotar o bloqueio total e compulsório das atividades, no dia 5 de maio, após o colapso do seu sistema de saúde. A medida tem gerado debates acirrados no Brasil em razão de seus efeitos econômicos, mas sua implementação país afora talvez seja apenas uma questão de tempo.

A experiência global tem evidenciado que países que inicialmente negaram a dimensão da doença, como o Brasil, viram-se obrigados a adotar restrições de circulação ainda mais rígidas quando seus hospitais se mostraram próximos ao colapso. Atualmente, segundo levantamento do Fórum Econômico Mundial, um terço da população mundial encontra-se sob lockdown, incluindo muitos países que, a priori, questionavam a necessidade da medida.

No Reino Unido, por exemplo, até meados de março, apostava-se na imunidade de rebanho, ignorando a implementação de medidas rígidas de isolamento social. Boris Johnson, primeiro ministro britânico, argumentava que se o vírus circulasse por uma grande parcela da população, ela seria imunizada, evitando um contágio futuro. Nesse contexto, estudo da Imperial College of London revelou que aproximadamente 250 mil britânicos morreriam no país se nenhuma medida extra fosse tomada. Após amplo debate público, tal posição foi revista e, no dia 23 de março, o país entrou em lockdown.

Em Milão, no fim de fevereiro a epidemia já dava sinais de que causaria milhares de mortes. Paralelamente, o prefeito milanês, ignorando os efeitos da doença, endossou a campanha "Milão não para", a fim de promover a economia e assegurar os empregos na cidade italiana. Em março, a região se tornou epicentro da doença no mundo, viu centenas de mortes por dia e, então, optou por entrar em lockdown. No fim do mês, o prefeito, que havia apoiado a campanha, pediu desculpas publicamente e disse estar profundamente arrependido do ato.

Por fim, nos EUA, a doença também foi subestimada. Na maior economia do mundo, os efeitos da pandemia foram reiteradamente minimizados pelo presidente Trump, não se criou um mapeamento do vírus, e pouquíssimos testes foram realizados, a princípio. Em fevereiro e no começo de março, com uma média de pouco mais de dois testes por mil habitantes, os Estados Unidos realizavam o equivalente a - proporcionalmente - ¼ dos testes realizadas na Alemanha à época. Na terceira semana do mês de março, após um crescimento exponencial dos casos e mortes em Nova York, que chegou a registrar 1600 novas hospitalizações em um único dia, a cidade parou. Meio ao cenário caótico, duras medidas de restrição passaram a ser implementadas e encontram-se em vigência até hoje.

A experiência global tem revelado que países que, a priori, negaram a gravidade da doença, tiveram que adotar restrições mais severas para contê-la. Assim se deu no Reino Unido, Itália e Estados Unidos. Governos que subestimam a gravidade da crise, como o brasileiro, após milhares de vítimas, se veem obrigados a assumir sua dimensão.


Vinícius Hector

Estudante de Economia na FGV/EPGE.