Rússia

27/04/2020

De acordo com um levantamento realizado pela universidade norte-americana Johns Hopkins, desde o dia 31 de janeiro de 2020 até 27 de abril de 2020, foram contabilizados 87.147 casos e 794 mortes por coronavírus na Federação Russa. Do total de contaminações, o país constatou um total de 7.346 pessoas recuperadas da doença.

A Rússia é o país mais extenso em área e o nono país mais populoso do mundo. No dia 27 de abril de 2020, a Rússia passou o número de infectados da China, sendo listada como o nono país com mais casos confirmados. De acordo com o site governamental de informações sobre o coronavírus, as áreas mais afetadas do país são, na respectiva ordem, Moscou, a região de Moscou, São Petersburgo e a região de Níjni Novgorod. Moscou e São Petersburgo são as regiões de maior densidade populacional da Rússia.De acordo com a agência de notícias britânica Reuters, os primeiros casos de coronavírus na Rússia surgiram no dia 31/01, com dois turistas chineses. Em fevereiro, apenas casos de nacionais russos em solo internacional foram notificados, como os que se contaminaram no cruzeiro Diamond Princess. Ao longo do mês de abril, o número de infectados apresentou aumento significativo em relação ao mês de março, de modo que todas as divisões da Rússia já haviam sido atingidas.

No mês de março, a imprensa questionava a veracidade do número de infectados apresentado pelo governo. A agência Reuters apontou que o país não estava testando pessoas assintomáticas, e que a porcentagem de infectados poderia não refletir a realidade. O número reportado de pessoas testadas subiu de um total de 223.509 casos reportados no dia 27 de março para 3.02 milhões no dia 27/04, de acordo com dados da Universidade de Oxford. No dia 27/04, a Rússia apresentava um total de 20,69 testes para cada 1.000 habitantes.

O presente relatório tem como objetivo mapear iniciativas tomadas por três setores: (a) público, (b) privado e (c) sociedade civil, de janeiro a 27 de abril de 2020.

Primeiramente, em relação ao setor público, o governo russo iniciou a contenção do coronavírus por meio do fechamento das fronteiras com a China. Em uma reunião com especialistas, o presidente Vladimir Putin informou que a entrega de kits de testagem às redes de laboratórios das regiões russas seria realizada a partir de 24/01.A partir dessa data, decretos do Médico Sanitário Chefe foram sendo publicados e estabeleceram medidas para reduzir a disseminação do coronavírus. No dia 4 de fevereiro, o governo russo emitiu um decreto segundo o qual todos os cidadãos provenientes da China não poderiam mais adentrar no território russo. Apenas a companhia aérea estatal Aeroflot continuou a operar voos entre China e Rússia.

Ainda no que tange ao setor público, Moscou começou a apresentar medidas de restrição de liberdade e monitoramento social desde o mês de fevereiro. Sergei Sobyanin, prefeito de Moscou, decretou que os cidadãos que manifestassem infecções virais respiratórias seriam obrigados a cumprir um regime de auto-isolamento de 14 dias. A prefeitura passou a fazer uso do sistema de monitoramento por reconhecimento facial da cidade com a finalidade de rastrear potenciais infectados pela doença, assim como multar cidadãos que descumprissem a quarentena imposta. A eficiência do monitoramento é atestada pela população. Já a imprensa aponta uma crítica ao monitoramento, expressando preocupação quanto à restrição de liberdades e ao perigo do armazenamento de dados por parte do Estado.

(Catedral de São Basílio e Kremlin, em Moscou)
(Catedral de São Basílio e Kremlin, em Moscou)

Ao longo do mês de março, as medidas adotadas pelo governo russo se tornaram ainda mais rígidas. Medidas adicionais como o cancelamento de eventos, fechamento de escolas, museus e teatros passaram a ser implementadas. O primeiro-ministro Mikhail Mishustin anunciou planos e medidas regulatórias para frear o avanço do coronavírus e dar assistência à economia.Mishustin assinou um decreto sobre a formação de um Conselho Coordenador para combater a propagação da doença. Também foi anunciada uma reserva de 300 bilhões de rublos (US $ 4.029 bilhões) dentro da estrutura do orçamento do ano, para cobrir gastos e apoiar as indústrias e cidadãos. Nesse mesmo sentido, foi implementada a obrigação de pagamento de licença médica para quem estivesse contaminado. Houve medidas de apoio à indústria comercial, com a simplificação do seu funcionamento e a formação de um suprimento confiável de bens essenciais. Foram concedidos empréstimos bonificados. No dia 27 de março, o país decretou a suspensão de todos os voos internacionais regulares.

No dia 28 de março, Vladimir Putin anunciou que o país passaria por "uma semana sem trabalho", ou seja, uma semana em que apenas os serviços essenciais continuariam funcionando. Houve um forte apelo para que os cidadãos ficassem em suas casas. Até o dia 1º de abril, a maior parte das divisões da Federação Russa haviam decretado o isolamento social, seguindo o exemplo de Moscou, que adotou o lockdown.

No início do mês de abril, Putin delegou grande parte das decisões a respeito do isolamento social aos prefeitos e governantes regionais. O primeiro-ministro considerou tais medidas excessivas e inaceitáveis. No dia primeiro de abril, Putin adotou nova legislação impondo severa punição às pessoas que disseminassem informações falsas sobre o coronavírus. A legislação também impõe implicações penais para pessoas que quebrarem a quarentena, que podem chegar a sete anos de prisão. Um dia depois, a "semana sem trabalho" anunciada por Putin foi prorrogada até 30 de abril.

A cidade de Moscou desenvolveu um sistema de permissão digital por QR code que permite que as pessoas saiam de casa durante o isolamento. A sua utilização se tornou obrigatória no dia 15/04. A implementação desse sistema tem o objetivo de multar todas as pessoas que saiam de sua residência sem a autorização digital. No dia 17/04, o governo russo autorizou o uso da substância hidroxicloroquina para o tratamento de casos de coronavírus, apesar da discussão mundial acerca dos efeitos adversos da medicação. Quanto aos locais proporcionados para o tratamento dos pacientes, o governo da Rússia se empenhou na transformação de parques e avenidas em hospitais temporários. Não há um número proporcional entre equipamento e leitos, além da falta de respiradores. A situação se agrava quando se observa cidades menores da Rússia, que possuem menos recursos e habitantes mais idosos do que a cidade de Moscou.

No setor privado, as maiores empresas industriais russas foram forçadas a diversificar suas atividades, criando acomodações temporárias, construindo respiradores, produzindo máscaras e até mesmo administrando serviços de transporte para não falirem. Enquanto as grandes empresas de metal, mineração, gás e óleo não foram fechadas pelo decreto do presidente por serem consideradas estratégicas, as pequenas empresas foram fechadas por decreto do governo. Empresas começaram a fazer testes no dia 26 de março. Apesar do número pequeno de empresas privadas produzindo os testes em relação às empresas públicas, o Fundo de Investimento Direto Russo (RDIF) e seus parceiros desempenharam um importante papel no aumento do fornecimento de testes para a população. O RDIF foi criado para atuar como um catalisador do investimento na Rússia. O chefe do RDIF disse que planeja aumentar a produção de kits de teste para 2,5 milhões de kits por semana.

(Palácio de Inverno, em São Petersburgo)
(Palácio de Inverno, em São Petersburgo)

Em relação aos bancos, foi anunciado que o Sberbank e o VTB, com apoio do Banco Central da Rússia, irão lançar um programa de empréstimos comerciais que oferece empréstimos a juros de 0% por seis meses a empresas. Outra empresa importante para o avanço das testagens russas foi a grande empresa de tecnologia Yandex. No dia 16, ela anunciou que realizaria testes de coronavírus nas casas dos residentes de Moscou com 65 anos ou mais. No dia 21/04, declarou que oferecerá testes gratuitos de coronavírus a todos os cidadãos de Moscou enquanto a cidade enfrentar o rápido avanço de infecções.

A respeito do desenvolvimento de vacinas contra o coronavírus, o chefe do Centro Russo de Pesquisa em Vetor de Virologia e Biotecnologia disse ao presidente Vladimir Putin que seu laboratório estava pronto para iniciar testes em humanos com vacinas experimentais contra o coronavírus em junho. A vacina já foi testada em animais.

No dia 14/04, parlamentares disseram ao prefeito de Moscou que a falta de ajuda para as pequenas empresas de Moscou atingidas pelo bloqueio levará à fome em massa e a protestos generalizados. O jornal Time revela que pequenas empresas solicitaram ajuda e alertaram sobre falências em massa em petições ao governo. A revolta devido à perda de empregos e à falta de informações claras fizeram com que 2 mil pessoas protestassem na cidade de Vladikavkaz. O jornal The New York Times descreve que graças a um fundo emergencial de mais de US$ 550 bilhões, acumulado com a venda de petróleo, a Rússia provavelmente conseguirá superar a crise econômica de uma forma melhor do que outros países. No entanto, apenas cerca de US$ 10 bilhões chegaram às pequenas empresas, que são as mais afetadas pela crise.

A maioria das ONGs está ocupando espaços onde o governo não está e procurando maneiras de resolver problemas que o governo não conseguiu corrigir. A Medical Volunteers é uma iniciativa que existe desde 2013 e elabora projetos em conjunto com as organizações internacionais que lidam com a melhoria da qualidade dos serviços médicos. Já o #Wearetogether, um projeto voluntário apoiado pelo governo e por empresas russas, possui hoje 9 mil voluntários, 700 empresas e grupos envolvidos. O Civic AssistanceCommittee é uma ONG que apoia refugiados, imigrantes e pessoas deslocadas internamente em Moscou. Além disso, a Igreja Ortodoxa da Rússia formulou uma série de medidas com o objetivo de impedir a propagação do coronavírus em seus espaços.

Ainda em relação às iniciativas da sociedade civil, figuras públicas russas lançaram uma petição pedindo ao governo que tomasse medidas urgentes contra o coronavírus, incluindo o adiamento da votação de 22 de abril sobre emendas constitucionais. A votação foi adiada. Um grupo de economistas liberais instou o governo a enviar pagamentos em dinheiro ao público a fim de evitar uma crise causada pelo coronavírus, de acordo com o site RBC. Já os especialistas em bioinformática da Universidade de São Petersburgo ajudaram a montar a sequência do genoma do coronavírus da Rússia. A sequência completa do genoma foi elaborada pelos pesquisadores do Instituto de Pesquisa de Influenza de São Petersburgo. No dia 14 de abril, a agência estatal russa de notícias TASS publicou que sete centros científicos na Rússia estão envolvidos no desenvolvimento de uma vacina e devem começar os ensaios clínicos em breve, conforme informação proveniente do Ministro da Saúde da Rússia, Mikhail Murashko. Em outra iniciativa, um grupo internacional de cientistas está desenvolvendo um tratamento contra a infecção por COVID-19. O Centro Conjunto de Supercomputadores da Academia Russa de Ciências (JSCC RAS) fornece acesso de alta prioridade aos recursos de computação para combater a infecção por COVID-19.

Em conclusão, a Rússia foi um dos primeiros países a restringir a circulação de pessoas provenientes da China, mas falhou na contenção do vírus que se espalhava pela Europa. A subnotificação do número de infectados no início do ano parece estar sendo superada. O mapeamento dos possíveis portadores é uma das principais características que diferencia as medidas de enfrentamento adotadas pela Rússia em relação aos demais países. O uso da força deu lugar ao armazenamento de dados. O país parece reforçar o isolamento com sucesso. A economia sofre perdas incalculáveis, mas quem sentirá os efeitos da pandemia serão, principalmente, as pequenas empresas russas. A pesquisa russa parece promissora, e o desenvolvimento de uma vacina já está nos planos e na agenda.