Singapura

27/04/2020

No dia 27 de abril de 2020, Singapura registrava 14 400 casos de Covid-19 e 14 mortes causadas pela doença. A Cidade-Estado de 5,8 milhões de habitantes, com um dos maiores PIBs per capita e IDHs do mundo tem sido considerada um dos melhores exemplos de combate ao novo coronavírus, como se infere de seu baixo índice de letalidade - a despeito do considerável crescimento no número de casos no mês de abril.

A compreensão das estratégias tomadas pelo país asiático passam pelo entendimento de sua história recente, marcada pela liderança de governos autoritários e rígidas leis de controle social. Em 2002, a Ásia enfrentou a primeira epidemia de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), causada por um vírus menos infeccioso, porém mais letal que o Sars-CoV-2. À época, Singapura registrou centenas de casos e, desde então, vem estrategicamente tomando diversas medidas necessárias para combater e evitar que outra pandemia se repita.

No dia 31 de dezembro de 2019, o governo chinês notifica a OMS sobre um número atípico de casos de pneumonia na província de Hubei. Rapidamente, em 2 de janeiro, o Ministério da Saúde de Singapura (MoH) emite um comunicado e coloca o país em estado de atenção. A partir do referido comunicado, as autoridades passaram a se preparar para um possível novo surto de SARS, observando cuidadosamente a situação. Ao longo de janeiro, o governo passou a checar a temperatura de todos os viajantes que chegavam ao país, instituiu quarentena de 2 semanas para aqueles que tivessem passado por Wuhan e orientou a população sobre o combate ao novo vírus. Em todos os comunicados do MoH estão presentes instruções de higiene e um clamor por seu cumprimento, contando com a responsabilidade social como estratégia de combate.

No dia 23 de janeiro, o primeiro infectado é confirmado. Trata-se de um chinês de Wuhan que chegou assintomático ao país. A partir dele e outros suspeitos, o MoH passa a mapear o contágio do vírus, listando familiares, pessoas que tiveram contato prolongado e locais de aglomeração frequentados pelo primeiro infectado e demais suspeitos, contando com suporte da Polícia para tal.

Esse tipo de análise passou a ser a regra no país a cada novo teste positivo. 

(Vista da Marina Bay, no centro da cidade)
(Vista da Marina Bay, no centro da cidade)

No dia 28 de janeiro, o país implementou a sua primeira proibição de viagens. Estrangeiros que passaram por Wuhan nos últimos 14 dias estariam proibidos de ingressar. Residentes nessa situação seriam colocados sob quarentena. Tal padrão seria repetido pelo mês seguinte, sendo estendido para toda China, já em 2 de fevereiro.

A partir de 17 de fevereiro, o governo da Cidade-Estado passou a enrijecer ainda mais as regras em voga, determinando novos procedimentos a serem observados pelos quarentenados. Segundo as novas regras, denominadas 'Stay Home Notice' (SHN), todos aqueles em situação de quarentena não poderiam sair de casa em hipótese alguma, nem mesmo para ir ao mercado ou farmácia, sob pena de multa e processo jurídico.

No começo de março, o governo já se preparava para a pandemia. Em um comunicado no 3º dia do mês, Singapura expande as restrições de viagem para o Irã, Norte da Itália, Coréia do Sul e Japão, afirmando estar acompanhando com cautela o avanço da doença. Nas duas semanas seguintes, restringe a entrada de passageiros de mais países, até que em 8 de abril, aplica a restrição a qualquer voo internacional, independente por qual parte do mundo tenham passado os passageiros.

Para além das restrições, o governo do arquipélago seguiu com suas política de mapeamento. Valendo-se de tecnologia, disponibilizou um aplicativo que utiliza informações bluetooth para registrar a aproximação do aparelho celular de infectados com pessoas saudáveis, a fim de avisá-las do risco de transmissão. No âmbito médico, ampliou a política de testes em massa. Atualmente, há uma média 25 200 testes por milhão de habitantes na cidade. E, por fim, anunciou isolamento social geral, visando a frear a crescente contaminação local.

No início do mês de abril, o país, até então elogiado pela OMS, sofre uma reviravolta. Contando com grande população estrangeira de baixa renda vivendo em dormitórios comunitários, Singapura viu o número de infectados crescer exponencialmente em virtude da impossibilidade de certas camadas sociais em exercer o isolamento social. Nesses locais, trabalhadores pobres, oriundos sobretudo de países como Índia e Paquistão, vivem em cômodos compartilhados por até 20 pessoas. A partir do primeiro teste positivo em dormitório de trabalhadores, com o caso 42, multiplicou-se em 12 vezes o número de infectados no país, sendo a maior parte deles registrada em tais ambientes, por vezes negligenciados pelo Estado. A fim de frear a propagação do vírus, o governo colocou tal grupo sob rígida quarentena, com exceção daqueles que trabalham em algum serviço essencial.

No campo econômico, o governo se predispôs a auxiliar trabalhadores autônomos e civis que tiveram suas rendas afetadas pela crise com uma renda extra de até USD 700,00, além de permitir o atraso de impostos e seu não-pagamento, em determinadas situações. Além do mais, disponibilizará linhas de crédito especiais para empresas, bem como certas isenções fiscais. No total, estima-se que o governo injetará na economia USD 38 bilhões, por volta de 11% do PIB do país, no que será o maior pacote de estímulo econômico da história da nação.

Além do Estado, a Sociedade Civil também tem se mostrado envolta pela causa. Consoante ao reconhecido senso se de responsabilidade social existente na ilha, o qual teve impactos diretos no controle do contágio, Singapura conta com inúmeras ações voluntárias, tais como a criação de aplicativos para realizar entregas a idosos e grupos que confeccionam máscaras para doação.

Por fim, em meio ao esforço global de busca por uma cura, a Universidade Nacional de Singapura (NUS), em parceria com o departamento de medicina da Universidade de Duke, está trabalhando no desenvolvimento de uma vacina, sendo estimado o início dos testes no final de 2020.

O grande diferencial de Singapura no combate ao novo coronavírus, certamente, é a rápida, pragmática e eficaz ação tomada pelo Estado, acompanhada pelo cumprimento das recomendações pela sociedade. Da eclosão da pandemia em Wuhan, ao primeiro caso no país, o governo se mostrou célere e eficiente em controlar, mapear e criar estratégias de contenção ao vírus, sempre mantendo uma comunicação eficaz com a população. Seja tomando medidas drásticas como a restrição de voos internacionais, seja criando aplicativos e incentivando o estudo científico, o Estado de Singapura tem se mostrado um vetor essencial e de sucesso contra a Covid-19.