Turquia

27/04/2020

Em 11 de março de 2020, a Turquia confirmou seu primeiro caso de Covid-19 por meio de um comunicado do Ministro da Saúde turco, Fahrettin Koca. Em seu pronunciamento, Koca afirmou que a Turquia estaria preparada para lutar nacionalmente contra esse novo vírus, haja vista que já teria se preparado para esse cenário.

Mais recentemente, em 27 de abril, o painel de monitoramento do Centro de Ciência e Engenharia da Johns Hopkins University - principal instituição responsável por fornecer dados relativos aos índices da Covid-19 no mundo - revelou que o número de casos no país seria de 112.261 e que o número de mortos seria de 2.805. Esses resultados revelam que a Turquia apresenta uma taxa de mortalidade de 2,5%. Ao comparar essa taxa com taxas referentes a outras nações do mundo, como a Itália (13,5%), os Estados Unidos (5,7%) e o Brasil (6,0%), pode-se observar que o índice de mortalidade na Turquia está mais baixo do que a média dos países.

Para que se compreenda o porquê de esse país ter uma taxa de mortalidade relativamente baixa e antes que sejam demonstradas as medidas tomadas pelo setor público, pelo setor privado e pela Sociedade Civil, deve-se entender o cenário em que a Turquia estava inserida quando a crise do coronavírus se instalou no território turco.

No que diz respeito ao sistema de saúde turco, destacam-se as reformas realizadas entre 2003 e 2013, as quais tinham como objetivo o atendimento de uma grande parcela da população. Resultado disso foi a construção de hospitais nos centros populacionais mais densos das grandes cidades turcas. Assim, diante da pandemia, o país já apresentava um número de leitos de UTI mais elevado em comparação com países como Estados Unidos, China e países europeus. Além dessas mudanças, vale ressaltar que o sistema de saúde da Turquia é universal, ou seja, todos os residentes podem receber atendimento gratuitamente.

(Basílica de Santa Sofia, com Istanbul ao fundo)
(Basílica de Santa Sofia, com Istanbul ao fundo)

Em contrapartida, a economia turca não vivenciava essa mesma "prosperidade". Em 2018, o país enfrentou uma grave crise financeira, que resultou na elevação dos índices de desemprego e de inflação, bem como no agravamento das ameaças de recessão diante de um cenário de desvalorização da lira, moeda corrente na Turquia. Com isso, a retomada do crescimento da economia turca era um objetivo em curso desde então.

No entanto, a crise gerada pela Covid-19 impactou não apenas o sistema de saúde, mas também a economia. A adoção do lockdown como medida de contenção da doença obriga a redução da atividade econômica ou, até mesmo, sua paralisação, sendo os impactos, a longo prazo, ainda incertos. Assim, caso a Turquia - cuja economia ainda está em recuperação - não atue com a devida cautela, poderá ocorrer uma considerável regressão do seu processo de recuperação econômica.

Explicitado, brevemente, o cenário da Turquia antes da eclosão da pandemia do novo coronavírus, pode-se, agora, abordar as iniciativas que estão sendo tomadas no país. O presidente turco Recep Tayyip Erdogan procurou agir em várias frentes por meio da adoção de iniciativas públicas e público-privadas visando ao combate da crise. Da mesma forma, a Sociedade Civil e o setor privado apresentaram planos a serem efetivados no país.

No que diz respeito às medidas econômicas, o histórico de recessão fez com que o presidente Erdogan se mostrasse receoso quanto à adoção da suspensão integral das atividades econômicas. Embora os sindicatos médicos recomendassem a liberação da população de suas obrigações trabalhistas para que ficassem em casa, Erdogan manteve a sua postura e, em um comunicado sobre essa decisão, disse que as "rodas da economia deveriam continuar girando".

Devido a essa visão, uma das primeiras medidas tomadas pelo seu governo, instituída em 18 de março, consistiu em um plano de injeção de 100 bilhões de liras na economia, equivalente a US$ 15,4 bilhões. Esses recursos foram injetados para a implementação de um conjunto de novas diretrizes econômicas, que consistem em pagamentos a empresas, cortes de impostos e um aumento no pagamento mínimo de pensões. Essa ação se destinou, principalmente, a ajudar a população turca a enfrentar a tempestade econômica causada pela pandemia. Além dessa medida, o governo também foi responsável por lançar a campanha intitulada "National Solidarity Campaign" com o objetivo de arrecadar fundos de auxílio para cidadãos de baixa renda. Esse fundo já conta com mais de US $ 82 milhões arrecadados.

Embora essas medidas tenham sido bastante populares, surgiu a demanda por planos voltados para a redução da curva de contágio desse vírus. Nesse sentido, o governo de Erdogan implementou medidas de contenção ao longo do último mês. A primeira, em 22 de março, foi a instituição de um toque de recolher para aqueles que tenham 65 anos de idade ou mais, os quais representam o maior grupo de risco. A segunda medida de isolamento foi implementada na noite de 3 de abril e se caracterizou como um toque de recolher para todas as pessoas nascidas a partir de 2000, de tal modo a evitar o contágio de jovens, que, segundo o governo turco, estariam se arriscando nas ruas por acreditarem que a doença não os afeta. Dessa forma, somados os dois toques de recolher, quase 40% da população total do país está em isolamento, o que representa, ao todo, 33,1 milhões de pessoas.

Logo após a efetivação dessas medidas primárias, o país vem instituindo novos toques de recolher, de forma a manter apenas os serviços essenciais em exercício.

Além de ações voltadas para conter o contágio e sustentar a economia, o governo turco também foi eficiente em proteger a população. Algumas medidas adotadas foram a organização de operações para evitar fraude na venda de produtos como álcool em gel e máscaras, a suspensão das atividades de organizações religiosas - evitando aglomerações nas mesquitas- e a criação de um aplicativo para monitorar casos positivos da Covid-19 no país. Vale mencionar, ainda, outras ações do governo, como a autorização para que pais de crianças com doenças psicológicas possam levar seus filhos para caminhar por tempo determinado e o oferecimento gratuito de máscaras a toda população em ambientes públicos, em uma parceria com farmácias do país.

(Balões na Capadócia, Turquia)
(Balões na Capadócia, Turquia)

Delineadas as principais medidas tomadas pelo setor público do país, passa-se à análise das ações implementadas pelos setores privado e público-privado.

No meio público-privado, a principal medida do governo turco, de 23 de março, consistiu na atuação conjunta de bancos estatais e bancos privados para implementar o adiamento do pagamento de dívidas, bem como o compromisso com a concessão de empréstimos a empresas com períodos de carência de até 12 meses. Ainda, no que se refere exclusivamente aos bancos privados, foi divulgado que esses autorizaram seus clientes a adiarem os pagamentos dos empréstimos até 30 de junho.

Já no ambiente privado, destaca-se a ação promovida pelos principais empresários e empresas privadas do país com a fundação da iniciativa Coronathon, que consiste em uma competição científica envolvendo inovações tecnológicas. Esse projeto teve como principal missão a busca por soluções mais criativas para os problemas causados ​​pela Covid-19 a partir de uma competição que envolveu vários projetos de diferentes universidades turcas - desde aplicativos de monitoramento de casos positivos a programas para confortar os usuários durante o isolamento.

Além dessa iniciativa, o meio privado foi responsável pela construção do Hospital Okmeydani, localizado em Istambul, com mais de 600 leitos equipados com tecnologia de ponta. Os recursos, cerca de 158,9 milhões de euros, para a construção do hospital foram doados pelo Grupo Islâmico de Desenvolvimento (IsDB). Houve, ainda, uma importante iniciativa privada centrada no ramo de hotelaria, um dos mais prejudicados pela crise: o Accor Hotel Group criou um fundo para apoiar seus funcionários, parceiros e a sociedade no contexto do combate ao surto da Covid-19.

Por fim, além dessas ações públicas e privadas, a Turquia também contou com a participação da Sociedade Civil na implementação de medidas durante o período da pandemia. A Associação da Sociedade Civil no Sistema Penal (CISST) e várias ONGs turcas pedem medidas preventivas contra a Covid-19 nas prisões e clamam pela garantia no fornecimento de higiene pessoal para impedir a propagação do vírus. Somada a essa medida, a IHH (Humanitarian Relief Foundation) lançou a campanha 'Agora é a hora da solidariedade' para apoiar o povo turco e fornecer alimentos e material de higiene aos necessitados.

Nesse mesmo contexto, 29 organizações não governamentais da Turquia se uniram em uma declaração conjunta alertando o país acerca das consequências do coronavírus. No âmbito trabalhista, as confederações sindicais da Turquia, DİSK e KESK, o Sindicato das Câmaras de Engenheiros e Arquitetos Turcos (TMMOB) e a Associação Médica da Turquia divulgaram uma lista de signatários de uma petição na qual fizeram uma lista contendo sete pontos de demandas urgentes e que devem ser atendidas pelo poder público durante a pandemia.

Portanto, conclui-se que a Turquia vem se mostrado cautelosa e tem implementado gradualmente medidas para o combate à crise. Suas políticas se destacam, principalmente, pela adoção de projetos governamentais estratégicos voltados não apenas para o setor econômico, como o exemplo da união público-privada entre os grandes bancos do país, mas também para o tratamento hospitalar e contenção da curva de contágio do vírus por meio do investimento nas medidas sanitárias. Ademais, o setor privado tem explorado intensivamente formas inovadoras de enfrentar a Covid-19 por meio da criatividade das futuras grandes mentes do país: os estudantes. A Turquia conta ainda com reivindicações da Sociedade Civil, que vem atuando por meio de petições para divulgar novos pontos de interesse e necessidade durante esse período. Dessa forma, a nação demonstra como está sendo capaz de movimentar todos os seus pilares para dar um fim a essa ameaça que tomou conta de todos os continentes.